ENTREVISTA
João Firmo:
" As pessoas não vão deixar de pedalar por causa da crise"
João Firmo - Diretor de Operações da Specialized Brasil

Em entrevista exclusiva, o diretor de operações da Specialized Brasil, o português João Firmo, fala sobre os lançamentos da marca, durante o evento Specialized Retailer Event 2016, ocorrido em Agosto, em Taubaté (SP). O executivo também analisa as condições do mercado de importação de bicicletas e os entraves para o seu crescimento, além de expressar claramente os motivos da não participação da Specialized na Brazil Cycle Fair deste ano. É só conferir.

Bicycle – Este é o sexto evento que vocês promovem a especialmente para lançar a linha nova de 2016, são alguns updates, upgrades, introdução de alguns novos produtos, como é a linha infantil e o quê mais?

João Firmo – Sempre trabalhamos a linha infantil, mas a grande novidade é que temos os modelos de roda 12 e 16 certificados. E hoje já podemos oferecer a linha infantil completa, juntamente com a 20 e a 24. Em relação aos modelos, todos os anos todos os modelos são revistos. Alguns modelos têm não muitas modificações, há novos lançamentos, da Avenge e da Stumpjumper FSR, que tem tido muito sucesso. São lançamentos muito recentes. Principalmente a Avenge que é foi primeiro produto que foi lançado pela Specialized, e que foi 100% desenvolvido no nosso próprio túnel de vento, construído há cerca de 3 anos, único no mundo, especificamente para produtos de ciclismo. Ele tem toda a sua construção, a sensibilidade das balanças, é feita para este fim. Onde se permite testar não só bicicleta, mas os distintos produtos, e sim o conjunto com o próprio ciclista, partindo sempre de uma base que 80% do esforço que é feito na bicicleta é precisamente para penetrar o ar. Não é subida, não é o seu peso. É precisamente a resistência do ar, que faz que tenhamos que exercer 80% do esforço que fazemos enquanto pedalamos, então a Specialized acredita que fazer produtos aerodinâmicos é fundamental para dar uma melhor experiência e eventos, como o que temos aqui, é a melhor prova disso. E está testado, provado, por organizações independentes, pelos próprios ciclistas, que em 40 km, em conjunto com alguns dos equipamentos que nós também desenvolvemos em túnel de vento, poupa-se cinco minutos em 40 km. E isso é para nós é um orgulho, chegar nesse desenvolvimento em apenas 3 anos, após termos feito o nosso túnel de vento.

Bicycle – Falando do evento em si, vocês tiveram oportunidade de estar com uma gama de lojistas e revendedores da marca e qual foi a sensação que vocês tiveram relação ao feedback desses deles na apresentação dos produtos e com relação ao mercado atualmente?

João Firmo – O mercado hoje no ciclismo e o mercado de esporte no geral, tradicionalmente, mesmo nos momentos mais difíceis acaba por ser beneficiado. Nós estamos nessa ilha, no meio desta perturbação política econômica e social do país e o mercado sim torna-se mais volátil, tem mais altos e baixo, mas na verdade o mercado continua a crescer. Já temos um crescimento significativo esse ano e acreditamos, e os lojistas que aqui estiveram presentes (no evento de Taubaté), acreditam que tem bastante receio, é um fato que olhando para trás, o que tem sido talvez o pior ano que nós passamos, em termos de confiança dos consumidores, foi muito bem. Então eles olharam para a gama, com estas novidades que serão, sem dúvida, que vão estimular o mercado, não é? São novas experiências, o que nós chamamos de motores do crescimento do mercado, o mercado feminino que está crescendo muito, o mercado fitness e urbano que também está crescendo, por pelos investimentos que estão sendo feitos em mobilidade urbana, ciclovias, etc. Este mercado de trilhas, que eu tento tenho falado, que no mundo está a crescer muito e que agora vai chegar ao Brasil com mais força, Enfim, há muitos segmentos que os lojistas entendem que são oportunidades e saímos daqui bem confiantes.

Bicycle – E como você, particularmente enxerga o mercado brasileiro? Como é que vocês analisam os players, seus principais aí a distribuição e o próprio mercado, em termos de volume de mercado em termos de adequação dos produtos que vocês querem colocar?

João Firmo – Em relação aos players o principal obstáculo ao seu crescimento e permanência no mercado e têm muito a ver com as imposições que têm sido criadas as para as empresas que atuam neste segmento. A questão da certificação, muitas questões burocráticas e licenças. É a concorrência que tem existido. Temos dois mundos no Brasil, é o mundo da produção da Zona Franca e o mundo produto fora da Zona Franca e isso tem criado um distanciamento nas condições que cada empresa tem. Há outras empresas que estão bem, que conseguem ter um nível de organização e o nível de capacidade financeira que permitem atravessar esse momento. Mas sem dúvida a questão financeira, o dinheiro tornou-se muito caro, menos disponível. E esse negócio exige uma capacidade financeira muito grande, exige estoques muito elevados, e sem dúvida o ambiente tornou-se mais difícil. Então claramente vai haver esta seleção, já está a ver. Volto aqui a afirmar que realmente o mercado não está mal, alguns segmentos, sim. Algumas regiões, sim. Mas em geral o mercado não está mal.

Bicycle – A gente sabe que a importação decresceu muito nos últimos anos, qual é o seu balizamento por conta desse crescimento, dos números só da Specialized, ou dos números mercado?

João Firmo – Mais uma vez é fundamental separar os segmentos de bicicleta. As importações que foram muito reduzidas foram as marcas que competiam com a indústria nacional. E essas, por via das certificações, por via de alguns obstáculos que foram criados, acabaram por não serem importadas. E como sabe, a utilização da bicicleta mudou muito no Brasil, que há alguns anos o Brasil consumia 5 milhões e meio de bicicletas era principalmente usada como é transporte. E esse mercado reduziu drasticamente. Hoje o mercado é muito mais de lazer e fitness do que de transporte. Começa a surgir uma nova classe de pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte, não por que é mais barato, mas sim por que valorizam as questões ecológicas, porque é mais prático. Hoje tem um perfil diferente e as importações das bicicletas com melhores características não tem vindo a diminuir, tem vindo a manter ou aumentar.

Bicycle – E falando agora nessa questão política, como você analisa as organizações do setor?

João Firmo – Existe organização, mas as forças políticas brasileiras têm muito mais força que essas organizações. E mais do que tudo, sem dúvida, ou seja, há um equívoco de como se pode dinamizar a indústria nacional. O fato de criar tanto impostos e impor tantos obstáculos a importação de bicicletas completas de alta gama, que no fundo vem trazer as tais experiências, depois vão ser os motores do desenvolvimento e depois levam ao desenvolvimento da indústria nacional, que hoje não têm capacidade para produzir estas experiências. A indústria nacional tem uma capacidade limitada, demora muito tempo a desenvolver toda a tecnologia, mão de obra especializada, só que é preciso ter motor de desenvolvimento, o histórico que há em mercados em que são muito protecionistas, é que nunca chegam a desenvolver determinadas indústrias, por que nelas nunca chegam a desenvolver no país. Hoje o ciclismo e as bicicletas de uso mais especializado, como o produto que nós oferecemos no Brasil poderiam ir muito mais além se não tivessem colocado tantas barreiras ao seu crescimento.

Bicycle – Vocês participaram há dois anos atrás da Brasil Cycle Fair e não mais no ano passado e esse ano também não vão participar. Como é que vocês apresentam esses lançamentos, com uma linha grande de produtos para o público final, deixando de participar de um evento, e que teoricamente teria esse essa função?

João Firmo – A Cycle Fair não é um evento para consumidor final. Cycle Fair é majoritariamente um evento para lojistas, um evento comercial, embora tenha a abertura de um dia para o consumidor final que podem usufruir deste evento, que foi pensado precisamente para fazer o comércio. Nós, como temos uma relação muito estreita com os nossos lojistas, não necessitamos de apresentação na feira para fazer a apresentação dos nossos produtos. Temos outros canais próprios que fazemos, dentro dos moldes. Como pode ver se tivéssemos este espaço na feira, era a feira toda, não é? Acreditamos que a feira é o motor do mercado, é importante, mas enfim, pela nossa posição, pelas nossas características acaba por não ser positivo para nós.

Bicycle – Como que você analisa agora o futuro da bicicleta? Você acredita que essa situação da própria economia pode ainda perdurar mais um tempo?

João Firmo – Que vai durar mais algum tempo é certo. Quanto todas as visões, todas as projeções vem sendo revistas em baixa. As projeções apontam que para o próximo ano vai ser um novo ano de recessão e só em 2017, já está prevista um crescimento da economia. Nós sabemos que antes do crescimento da economia vem o aumento do consumo. É o que muda, o que faz estimular o crescimento é claro as exportações, mas também muito consumo doméstico. O mundo do esporte acaba sendo beneficiado, por que as pessoas têm mais tempo livre, as pessoas têm necessidade de vazão, as pessoas não vão deixar de pedalar por causa da crise, antes pelo contrário, as pessoas vão pedalar mais e nós acreditamos nisso.

Bicycle – Como estão os números da Specialized? O que você sobre a projeção de crescimento?

João Firmo – Nós acreditamos que estamos desempenhando aquilo que é o nosso trabalho, é nisso que acreditamos. Não trabalhamos pelos números. Para dar mais esta boa experiência ao ciclista, com foco naquilo que achamos que é realmente importante e os resultados vem depois. Os resultados são uma conseqüência do nosso trabalho. Nós somos uma empresa privada, nós somos uma empresa de capital aberto, nós não temos que prestar contas a ninguém. Nós temos um empresa muito capitalizada, nosso fundador continuar ser dono de empresa e tudo o que nós fazemos é em função de dar a melhor experiência o ciclistas. E os resultados vem em função disso. Não trabalhamos para os resultados.

 

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