LITERATURA
Bikenomics: a força está no pedal

Em livro conceituado, a cicloativista americana Elly Blue ressalta o potencial das bicicletas para enfrentar crises econômicas e solucionar problemas urbanos do século XXI

Esqueça as teorias batidas sobre o uso da bicicleta como "opção saudável de lazer" ou uma "resposta para problemas ambientais e de mobilidade urbana". Bikenomics, conceituado livro da cicloativista americana Elly Blue, mostra o poder transformador das magrelas em meio ao caos urbano. Elas são apontadas como fator de evolução econômica, um verdadeiro antídoto contra crises. Em tempos de orçamentos apertados, ajudam a reduzir gastos públicos e individuais, formando uma corrente do bem.

O livro chega ao Brasil pelas mãos da Babilonia Cultura Editorial (224 páginas), mostrando o estilo de vida de Elly e sua experiência sobre duas rodas. A autora nunca teve carro próprio e, desde 1998, usa somente a força dos pedais como meio de transporte. Moradora de Portland (Oregon), ela mostra como viajar sem carro ou até fazer mudanças sem usar caminhões – e alternativas para cortar as despesas com transporte motorizado.

Segundo Elly, investimentos públicos para melhorar a circulação de carros são altos e o retorno, muito baixo. Em compensação, o investimento em infraestrutura para ciclovias é baixo e oferece um retorno alto. Também autora de um blog sobre o tema, ela escreve com base em histórias reais de pessoas que trocaram o carro por bicicletas e mudaram suas vidas, experiências pessoais, extensa pesquisa financeira e dados estatísticos.

Bikenomics também desmonta a ideia de que a bicicleta serve apenas para lazer ou esporte. Pelo contrário. Ela pertence às ruas como alternativa viável de transporte, em substituição aos motores cada vez mais possantes dos automóveis. Foi o pouco dinheiro no bolso que impulsionou Elly Blue – antropóloga por formação – a tomar gosto pelos pedais. Ao se envolver com a comunidade ciclística, ouvir histórias e tomar conhecimento de pesquisas econômicas relacionadas ao universo da bicicleta, descobriu que a vida sobre duas rodas era mais que divertida, era uma forma de unir o útil ao "faça-a-coisa-certa".

Começou, então, a escrever sobre o tema como forma de tornar pública essas informações articulando sua própria vivência no dia a dia da bicicleta. Elly chegou à conclusão de que a bicicleta poderia ser a solução dos problemas que ela via na cidade. Assim nasceu o livro, que chega agora ao Brasil.

Inicialmente publicado em posts de blogs, reunidos em um zine homônimo e, posteriormente, em livro, Bikenomics é lançado pela Babilonia Cultura Editorial com conteúdo exclusivo da autora para leitores brasileiros, além de comentários do consultor de mobilidade urbana Daniel Guth e apresentação do diretor da Transporte Ativo Zé Lobo, que afirma que "este livro nos faz dimensionar o quão longe a bicicleta pode nos levar".

A autora encoraja os leitores e entusiastas de bikes no Brasil a colocar a mão na massa [e no guidão]: "Espero que alguém se inspire no livro para escrever o 'Bikenomics' brasileiro, com informações sobre o custo das vias, da estruturação dos impostos e uma pesquisa profunda sobre o investimento do país em transporte e quem é beneficiado nesse cenário". Elly acredita que "pedalar pode ser uma potente ferramenta para unir nossas comunidades e nos afastar dos valores desastrosos que criaram essa violência generalizada".

A bicicleta como nunca vista antes
No quesito mobilidade, o ciclismo promove reflexão sobre o deslocamento centrado no uso do carro e seu gasto, visto que automóveis ocupam muito mais espaço e, às vezes, transportam apenas uma pessoa.

Nos Estados Unidos, o custo de manutenção de um carro corresponde a cerca de 20 mil dólares anuais – e, mesmo quem não tem condições financeiras mínimas, paga por isso. Em comparação, a substituição pode acarretar em 20% de economia na renda familiar. A partir desses e outros cálculos presentes no livro, Elly questiona: será que as pessoas têm conhecimento desses números e do impacto da indústria automotiva?

O movimento no Brasil
Os comentários de Daniel Guth, consultor de mobilidade urbana e coordenador do projeto de ciclofaixas de São Paulo, conectam a realidade brasileira às informações fornecidas por Blue do movimento norte-americano.

A apresentação de Zé Lobo, diretor da Transporte Ativo, mostra a importância de ceder espaço no Brasil para a bicicleta. Lobo ressalta a tendência de "países que há muito vêm planejando para a bicicleta com uma visão de transporte urbano e segurança viária já começam a pensá-la no âmbito de uma economia saudável", o que ocasiona um "benefício [...] válido para todos os cidadãos, para todas as cidades".

Bikenomics aborda a adoção da bicicleta para além de um estilo de vida, uma medida necessária que pode tornar o mundo um lugar melhor. E no Brasil, esse pensamento vem sendo pouco a pouco adotado, como é percebido no aumento da quantidade de ciclovias em algumas cidades. O movimento da bicicleta por aqui também é real, ganha cada vez mais espaço e está na agenda de reconfiguração das cidades.




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